O Rap é compromisso social, é a voz do gueto que se liberta e desfaz preconceitos, mostrando a criatividade e a expressão daqueles que são excluídos da sociedade marcada pelo racismo e pelas diferenças de classe, que impõe padrões hegemônicos e referências de linguagem que privilegiam as elites, negam o universo das favelas e periferias das grandes cidades. Seja no Brasil ou no país de origem do gênero musical (EUA) é a cultura negra que marca o ritmo e a poesia envolvente, e no embalo eloquente das palavras encadeadas libertam os corpos oprimidos, resignificando o sentido das coisas em uma linguagem própria das ruas. Toda a cultura hip hop, que engloba o break, o Rap e o graffite é um grito de liberdade dos jovens que em vez de consumirem e aceitarem a cultura que lhes é imposta por um mercado cultural sedutor, resistem através de sua própria arte e se afirmam como protagonistas, produzindo e elaborando seus próprios conteúdos de maneira autentica e independente. Que fique claro que o Rap representa luta e a resistência acontece no campo da cultura, contra o racismo, opressão social, violência policial e outros dramas que os negros e moradores de áreas e comunidades pobres conhecem muito bem. Só eles podem falar com propriedade real sobre o assunto e através da sua arte e expressão criam suas próprias referências. Não é o jornalista, o assistente social ou o antropólogo traduzindo em códigos os sentimentos, as dores e as alegrias do gueto. É o gueto, é a periferia, é a favela a comunicar ao mundo a sua realidade de maneira peculiar, usando a palavra e o ritmo, mostrando com o corpo e com as imagens que no gueto existe criatividade, beleza, vontade de liberdade, desejo de expressão e união.
“O rap quer ser uma exceção (...) se você
parar pra analisar, periferia é desunido. Rap, o rap é uma exceção que ainda
fala de união num lugar onde não se fala. Qual é o lema da periferia? “Cada um, cada um‟ e o rap é o quê? “É nóis na fita‟, é outra ideia. Esse bagulho de ”é nóis, é nóis‟ é coisa de
rap. Malandro quando tem dinheiro se joga. O cara quando ele tem dinheiro, ele
vai embora. Ele tá ligado que os próprios caras da quebrada vai crescer o
olho... vai casar uma casinha pra ele cair, um barato, e o rap ainda prega o
contrário, não, vamo tentar. Vocês são unidos, eu to vendo que vocês são
unidos. Não é totalmente... não é tão individual assim.
Querendo ou não, vocês são ligados, eu
sou ligado a eles. Eu sou ligado a ele
indiretamente, agora tô ligado a você indiretamente, e você ligado a outros e
outros são ligados a outros, nóis tamo aí, é uma teia. É uma teia. É uma teia.
Fora daqui você não vai ver isso muito, você não vai ver isso na rua. Essa
união que nóis tamo falando não existe em outro lugar nenhum, em movimento
nenhum, em profissão nenhuma.” (BROWN, In: 100% Favela,
2006).
O
estilo é marcado pelo ritmo dos tambores africanos, pela cultura negra
introduzida pelos pioneiros do estilo (os jamaicanos) que imigraram para os EUA
nos anos 60 e faziam festas populares nas ruas com DJs e sistemas de som muito
populares na época. Com a tecnologia dos sistemas de som e a prática da reunião
comunitária em festas populares, o Rap, que no linguajar dos negros
afro-americanos (nos anos 60) também significava conversar, se apresenta como
uma novidade, mostrando uma realidade até então era considerada marginal. No
entanto, o que era uma perspectiva local se multiplica, no início sem muita
ajuda da mídia. É com o canto falado que os jovens de comunidades pobres das
grandes cidades se comunicam entre si e das caixas de som nas esquinas das
metrópoles pôde ser ouvida a voz dos guetos de Nova York, que se espalhou pelo
mundo e encontrou eco em outras comunidades em grandes cidades. Entre essas
grandes metrópoles, podemos incluir o Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 80,
onde o Rap foi acolhido no gueto como se fosse um velho conhecido, pois já
tínhamos as rodas de samba, de capoeira e a cantoria nas esquinas. O estilo
então foi crescendo, primeiro em São Paulo, depois no Rio, encontrando na
periferia e na favela um terreno fértil. Hoje é um ritmo bem difundido no mundo
inteiro, mas essa trajetória sempre foi marcada pela solidariedade e ajuda mútua,
fazendo dessa cultura uma maneira de lutar contra a opressão social agregando
de maneira consciente e organizando a resistência pela inteligência, informação
e ação.
Na
medida em que o Rap se populariza, cresce a sua permeabilidade nas camadas
sociais mais variadas e se torna um gênero musical “da moda”, cresce também a necessidade
da mídia capturar essa cultura e distorcer suas raízes, subvertendo sua visão
principal para torná-la um produto mais vendável. O mercado cria seus produtos
e para vendê-los, por vezes, mudam a forma ou apresentação, mas quando estamos
falando de arte, estamos falando de expressão humana, liberdade e não de
mercadorias. Cabe ao artista fazer a escolha, respeitar a escola sem precisar
se vender, sem mudar o proceder. Não é o Rap que tem que mudar pra ser “aceito”
pela sociedade, é a sociedade que tem que aceitar a sua realidade, essa é a
visão, o Rap tem algo a dizer para o mundo e não se trata de um modismo é uma
história construída de resistência e militância que deve ser respeitada. Mas é
claro que há uma troca, o Rap precisa evoluir e se expandir e para evoluir é
importante trocar, mas trocar é diferente de ceder ou se vender. Quando
trocamos estamos em uma relação que no mínimo é bilateral e pode ser
multilateral, no outro caso, nos dobramos diante do domínio cultural do outro
que nos impõe seus padrões de expressão. Essas são as armadilhas do mercado e a
mesma mídia que levanta, derruba, ridiculariza e depois abandona. Portanto, é a
união, o fortalecimento de uma rede de colaboração e trocas que vai marcar o
Rap como um movimento cultural forte e não a aceitação de seus produtos no
mercado cultural. Nunca se esqueçam do mais importante que é “nós por nós”! Juntos nós fazemos a roda girar e quando a
roda gira o mundo gira com ela e se transforma.

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