sábado, 29 de dezembro de 2012

Trechos do Manifesto da 1ª semana de arte moderna da PERIFERIA.


"A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza"






**Manifesto da Antropofagia periférica**

A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.
A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.
Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.
Do teatro que não vem do “ter ou não ter...”. Do cinema real que transmite ilusão.
Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras.
Da Dança que desafoga no lago dos cisnes.
Da Música que não embala os adormecidos.
Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.
A Periferia unida, no centro de todas as coisas.
Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.
Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.
Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.
Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.
Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles ? “Me ame pra nós!”.
Contra os carrascos e as vítimas do sistema.
Contra os covardes e eruditos de aquário.
Contra o artista serviçal escravo da vaidade.
Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

É TUDO NOSSO!

Poeta Sérgio Vaz

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Roda do tempo.

    O tempo passa e qual peça encaixamos no mundo que construímos? A cada giro do relógio a vida convida para o novo e sempre de novo e de novo e de novo... no looping eterno do tempo recomeçamos quebra-cabeças. Mude que o mundo muda com você. 




É hora de parar e refletir sobre o fim de mais um ciclo e nos preparamos para a próxima jornada da nossa nave viajante Terra em torno do sol. Para seguir melhor nas voltas que o tempo dá é recomendável acompanhar a cadência da vida e caminhar com leveza, como as notas musicais que saltam no tempo libertando-se do silêncio para mover sonhos e emoções. Para toda realidade que parece impossível de mudar há um sonho que a desafia. Liberte seus sonhos e espalhe seu canto em cada canto da cidade. Feliz 2013!   



Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...
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Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Compromisso com a resistência cultural!





        O Rap é compromisso social, é a voz do gueto que se liberta e desfaz preconceitos, mostrando a criatividade e a expressão daqueles que são excluídos da sociedade marcada pelo racismo e pelas diferenças de classe, que impõe padrões hegemônicos e referências de linguagem que privilegiam as elites, negam o universo das favelas e periferias das grandes cidades. Seja no Brasil ou no país de origem do gênero musical (EUA) é a cultura negra que marca o ritmo e a poesia envolvente, e no embalo eloquente das palavras encadeadas libertam os corpos oprimidos, resignificando o sentido das coisas em uma linguagem própria das ruas. Toda a cultura hip hop, que engloba o break, o Rap e o graffite é um grito de liberdade dos jovens que em vez de consumirem e aceitarem a cultura que lhes é imposta por um mercado cultural sedutor, resistem através de sua própria arte e se afirmam como protagonistas, produzindo e elaborando seus próprios conteúdos de maneira autentica e independente. Que fique claro que o Rap representa luta e a resistência acontece no campo da cultura, contra o racismo, opressão social, violência policial e outros dramas que os negros e moradores de áreas e comunidades pobres conhecem muito bem. Só eles podem falar com propriedade real sobre o assunto e através da sua arte e expressão criam suas próprias referências. Não é o jornalista, o assistente social ou o antropólogo traduzindo em códigos os sentimentos, as dores e as alegrias do gueto. É o gueto, é a periferia, é a favela a comunicar ao mundo a sua realidade de maneira peculiar, usando a palavra e o ritmo, mostrando com o corpo e com as imagens que no gueto existe criatividade, beleza, vontade de liberdade, desejo de expressão e união.
O rap quer ser uma exceção (...) se você parar pra analisar, periferia é desunido. Rap, o rap é uma exceção que ainda fala de união num lugar onde não se fala. Qual é o lema da periferia?  “Cada um, cada um‟ e o rap é o quê?  “É nóis na fita‟, é outra ideia.  Esse bagulho de ”é nóis, é nóis‟ é coisa de rap. Malandro quando tem dinheiro se joga. O cara quando ele tem dinheiro, ele vai embora. Ele tá ligado que os próprios caras da quebrada vai crescer o olho... vai casar uma casinha pra ele cair, um barato, e o rap ainda prega o contrário, não, vamo tentar. Vocês são unidos, eu to vendo que vocês são unidos. Não é totalmente... não é tão individual assim.
Querendo ou não, vocês são ligados, eu sou ligado a eles. Eu  sou ligado a ele indiretamente, agora tô ligado a você indiretamente, e você ligado a outros e outros são ligados a outros, nóis tamo aí, é uma teia. É uma teia. É uma teia. Fora daqui você não vai ver isso muito, você não vai ver isso na rua. Essa união que nóis tamo falando não existe em outro lugar nenhum, em movimento nenhum, em profissão nenhuma.” (BROWN, In: 100% Favela, 2006).
O estilo é marcado pelo ritmo dos tambores africanos, pela cultura negra introduzida pelos pioneiros do estilo (os jamaicanos) que imigraram para os EUA nos anos 60 e faziam festas populares nas ruas com DJs e sistemas de som muito populares na época. Com a tecnologia dos sistemas de som e a prática da reunião comunitária em festas populares, o Rap, que no linguajar dos negros afro-americanos (nos anos 60) também significava conversar, se apresenta como uma novidade, mostrando uma realidade até então era considerada marginal. No entanto, o que era uma perspectiva local se multiplica, no início sem muita ajuda da mídia. É com o canto falado que os jovens de comunidades pobres das grandes cidades se comunicam entre si e das caixas de som nas esquinas das metrópoles pôde ser ouvida a voz dos guetos de Nova York, que se espalhou pelo mundo e encontrou eco em outras comunidades em grandes cidades. Entre essas grandes metrópoles, podemos incluir o Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 80, onde o Rap foi acolhido no gueto como se fosse um velho conhecido, pois já tínhamos as rodas de samba, de capoeira e a cantoria nas esquinas. O estilo então foi crescendo, primeiro em São Paulo, depois no Rio, encontrando na periferia e na favela um terreno fértil. Hoje é um ritmo bem difundido no mundo inteiro, mas essa trajetória sempre foi marcada pela solidariedade e ajuda mútua, fazendo dessa cultura uma maneira de lutar contra a opressão social agregando de maneira consciente e organizando a resistência pela inteligência, informação e ação.
Na medida em que o Rap se populariza, cresce a sua permeabilidade nas camadas sociais mais variadas e se torna um gênero musical “da moda”, cresce também a necessidade da mídia capturar essa cultura e distorcer suas raízes, subvertendo sua visão principal para torná-la um produto mais vendável. O mercado cria seus produtos e para vendê-los, por vezes, mudam a forma ou apresentação, mas quando estamos falando de arte, estamos falando de expressão humana, liberdade e não de mercadorias. Cabe ao artista fazer a escolha, respeitar a escola sem precisar se vender, sem mudar o proceder. Não é o Rap que tem que mudar pra ser “aceito” pela sociedade, é a sociedade que tem que aceitar a sua realidade, essa é a visão, o Rap tem algo a dizer para o mundo e não se trata de um modismo é uma história construída de resistência e militância que deve ser respeitada. Mas é claro que há uma troca, o Rap precisa evoluir e se expandir e para evoluir é importante trocar, mas trocar é diferente de ceder ou se vender. Quando trocamos estamos em uma relação que no mínimo é bilateral e pode ser multilateral, no outro caso, nos dobramos diante do domínio cultural do outro que nos impõe seus padrões de expressão. Essas são as armadilhas do mercado e a mesma mídia que levanta, derruba, ridiculariza e depois abandona. Portanto, é a união, o fortalecimento de uma rede de colaboração e trocas que vai marcar o Rap como um movimento cultural forte e não a aceitação de seus produtos no mercado cultural. Nunca se esqueçam do mais importante que é “nós por nós”!  Juntos nós fazemos a roda girar e quando a roda gira o mundo gira com ela e se transforma. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O poeta da semana é Waly Salomão.



Era filho de sírio com uma sertaneja. Atuou em diversas áreas da cultura brasileira. Seu primeiro livro foi Me segura qu'eu vou dar um troço, de 1972. Em 1997, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura com o livro de poesia Algaravias. Seu último livro foi Pescados Vivos, publicado em 2004, após sua morte.

Foi letrista de canções de sucesso, como Vapor Barato, em parceria com Jards Macalé. Amigo do poeta Torquato Neto, editou seu único livro, Os Últimos Dias de Paupéria, lançado postumamente. Suas canções foram intérpretadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Gal Costa e O Rappa, entre outros. Na década de 1960, participou do movimento tropicalista.[2]

Nos anos 1990, Waly Salomão dirigiu dois discos da cantora carioca Cássia Eller. São eles Veneno AntiMonotonia (1997) e Veneno Vivo (1998).

Trabalhou no Ministério da Cultura, como assessor de Gilberto Gil, no início de seu mandato, e uma de suas propostas era a inclusão de um livro na cesta básica dos brasileiros.
Algumas poesias dele:



Não choro
meu segredo é que sou rapaz esforçado
fico parado calado quieto
não corro não choro não converso
massacro meu medo
mascaro minha dor
já sei sofrer
não preciso de gente que me oriente

Se você me pergunta
como vai
respondo sempre igual
tudo legal

Mas quando você vai embora
movo meu rosto do espelho
minha alma chora
vejo o Rio de Janeiro
vejo o Rio de Janeiro
comovo, não salvo, não mudo
meu sujo olho vermelho
não fico parado
não fico calado
não fico quieto
corro choro converso
e tudo mais jogo num verso
intitulado MAL SECRETO
e tudo mais jogo num verso
intitulado MAL SECRETO


Gigolô de bibelôs
Waly Salomão



Hoje
O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Participe da campanha e faça a roda de livros girar ainda mais.


O poeta Torquato Neto é o homenageado dessa semana.






Cogito


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Rap e literatura


Grande projeto da rapaziada de Diadema, São Saulo. Rap é ritmo e poesia, unir a literatura e o rap é fazer revolução na cidade e na linguagem. O livro é a principal arma do revolucionário. Instrumentos de luta contra a opressão, o livro e o rap são sinônimos de transformação, quando o gueto fala o doutor abaixa a orelha. O rap captura a informação dos livros e pode quebrar a barreira do preconceito, falando a linguagem dos territórios das ruas com ritmo, poesia e conteúdo. O rap é a nova voz do gueto, a nova voz das ruas.





O canto, o ritmo e a palavra  estão presentes nas reuniões e rodas descritas por toda a história da humanidade. Não podia ser diferente nos tempos atuais, a galera gosta de uma roda, seja de conversa, de música e por que não literatura? Roda de livros sim, rap sim. Roda Cultural do Méier, estamos juntos e misturados em ritmos, afetos e palavras.